28 de agosto de 2010

Da série Massagem

Arrepio

Na nova fase consigo me dar presentinhos. E semanalmante a Lili usa a força de suas mãos para drenar meu corpo cansado de cinco dias de sapos engolidos. Preciso retirá-los pelos poros, logo na manhãzinha de sábado, para dar lugar ao que realmente me interessa.
Eu na maca e ela, mulher sofrida, mãe de filha com necessidades especiais, esposa de um homem que a trai há dois anos, aperta com força minhas pernas, minhas costas, drena cada parte de mim como se arrancasse de si mesma a dor que está evidente em seu rosto, logo quando me abre a porta e me diz um 'bom dia' duvidoso.
Deito na maca e penso o que eu seria se no lugar dela estivesse. E agradeço a Deus porque meu destino é outro e o que preciso ali, pura e simplesmente, é de um pouco de sossego, relax total e expurgar o que me é impuro e que ainda está lá dentro.
Porque tenho um filho lindo, saudável, um marido bacana e fiel, uma vida estruturada e estou me dando o direito de mudá-la, moldada ao que me faz feliz hoje.

(pausa: mudei também o layout do blog. Gostou? Sinto-o mais suave, assim como me sinto...)

Lili coloca no toca CD uma música que nunca ouvi. E de tão linda, sem querer, percebo uma lágrima rolar no canto de meu olho. Percebo, também, que o belo me toca tanto hoje, que ainda não o domino por inteiro... e deixo que a lágrima, também drenada de minha alma renovada, role e inunde meu rosto que hoje está descansado.
A música, doce, singela, só tocada, vai entrando pelos ouvidos e faz um caminho que me arrepia.
Lili pergunta se estou com frio e digo que não. Na verdade, nunca me senti tão aquecida assim, por dentro.
O caminho do som parece tão claro que chego a enxergá-lo passando pela garganta, espalhando-se nos pulmões, rins, dando um looping e invadindo o coração, onde fica por mais tempo, deixando-se bombar pelo ritmo calmo que ora pulsa.
Depois, sai dali fortalecida, a música, e percorre braços, pernas, volta pelo mesmo caminho da ida e esvai-se pelas lágrimas que continuo a não controlar, casadas a um sorriso leve e a um forte suspiro junto ao último acorde da música no CD player.
Hora de dizer 'até mais!' à Lili para começar meu fim de semana de um jeito meu.
Só fico triste ao perceber que ela, a massagista, se despede e fica à porta, olhando-me, com aquela postura derrotada e infeliz.
Tomara que alguma coisa boa tenha ficado nela, nem que sejam as poucas palavras de consolo que pronunciei depois que ela se abriu comigo.
Tomara! Porque eu devo muito à Lili, que todos os sábados drena de mim aquilo que de mim não quero mais.