6 de julho de 2009

Da série Contos nada infantis


O lobo não era tão mau...

Chapeuzinho Vermelho foi visitar a vovó com a desculpa de levar doces à velhinha.
Na verdade, ela queria pegar a grana da coitada para comprar roupa nova, mudar o visual. Cansou da capa vermelha e do cabelo daquele jeito. Estava a fim de uma escova definitiva.
Ela sabia que na floresta morava um lobo bem sacana, que vivia de biscates pouco lícitos.
Contratou o tal que topou o serviço: comer a vovozinha, mas antes arrancar dela a combinação do cofre.
Chapeuzinho chegou depois do trabalho consumado, abriu o cofre e pegou todo o dinheiro. Pagou o lobo e já estava saindo quando este disse que queria mais e que se ela não desse metade de tudo, ele a entregaria às autoridades, como mandante do crime. Ela se fez de tola e pediu tempo pra pensar. No fundo, estava cheia de raiva daquele lobo safado. Foi ao encontro do caçador e contou a mesma história que eu e você ouvimos lá nos primórdios de nossa infância. E o caçador também caiu! Foi até a casa da falecida e matou o lobo. Chapeuzinho saiu ilesa, de guarda-roupa novo e cabelos lisos. Agora anda atrás de algum príncipe encantado, cheio da grana.

Por um final feliz

Depois que Branca de Neve foi envenenada pela maçã da bruxa, os anões ficaram arrasados.
Colocaram a princesa numa redoma de vidro. O príncipe bonitão beijou a falecida. Nada! Ela não ressuscitou. Tinha morrido mesmo. Mas não dava pra deixar essa história assim... seria um final nada a ver com os contos infantis. E fazer parte de um enredo tão trágico... nenhum dos anões queria ter isso no currículo. O Mestre, aquele mais inteligente, teve uma idéia: espalharam em todas as árvores da floresta um anúncio para contratar uma sósia da Branca. Apareceram milhares. A seleção foi super difícil, mas encontraram uma perfeita. Ajuste no cabelo, um pouco de pó de arroz, duas semanas de regime e aeróbica e ela estava no ponto.
Os anões enterraram a verdadeira princesa e colocaram a falsa na redoma. O Zangado, mesmo reclamando e de saco cheio, foi ao encontro do príncipe para pedir que voltasse lá e beijasse a princesa de novo. O gostosão relutou um pouco. Ficou traumatizado depois que beijou o cadáver. Mas, pelo bem de todos, cedeu. Chegou na redoma, desceu do cavalo e tascou um beijo na princesa - a cópia dela, na verdade. Esta acordou do fingimento e agarrou o pescoço do super fofo. O resto da história você já sabe. Quem se ferrou mesmo foi a bruxa que, cá entre nós, morreu à toa. Mas como diriam uns e outros... ema, ema, ema, cada um com seu problema.

Jogue suas tranças?

Rapunzel ficou anos presa na torre do castelo. E seus cabelos cresceram horrores. A idéia - muito romântica, por sinal - era que servissem de apoio para um aventureiro - forte, taludo, daqueles que eu ou você, minha amiga, faria de tudo pra tirar uma lasquinha - subir à torre e salvá-la.
Seria assim se Rapunzel não fosse arretada e independente. A danada não quis esperar. Cortou os cabelos rentinhos e usou as longas madeixas para fazer uma corda e descer pela parede do castelo. Não há registros oficiais, mas se sabe que Rapunzel foi a primeira alpinista dos contos infantis. Depois, ela resolveu escalar o Everest, mas teve de esperar uns 30 anos pros cabelos crescerem de novo. Acabou morrendo solteira, e foi a precursora da velha e boa frase: 'antes só do que mal acompanhada'.

Feijão tem gosto de festa...

Lembra daquele conto clássico do Joãozinho e o pé de feijão? Aquele que da semente nasceu uma super árvore gigante e mágica que o menino escalou dias e noites até chegar no castelo do gigante malvado? Pois então... o monstro - que adorava comer gente - tinha uma galinha que botava ovos de ouro (coitada!). Joãozinho roubou a penosa e desceu à toda o pezão de feijão para fugir do grandalhão. Quando chegou em terra firme, quis derrubar a árvore a machadadas, mas foi impedido por um grupo de ativistas que fizeram um cordão humano em volta do tronco da planta, para que ninguém a pusesse abaixo. João, com aquela sua paciência infinita, tentou convencê-los do perigo de deixar o gigante descer do pé. Mas em vão. Ninguém deu bola pros seus argumentos e se mantiveram firmes. Também estavam a fim de arrumar encrenca com o menino por causa da galinha que sofria muito cada vez que botava um daqueles ovos dourados. Aquele final que você conhece, que João aniquila o monstro, fica com a galinha e ganha muita grana com os ovos... pura babaquice. O que aconteceu, de fato - e não sei se devia revelar, porque é chocante - é que o gigante jantou muito bem naquela noite: um ensopado de feijão, regado a João, com pedacinhos crocantes de ativistas, num delicioso caldo de galinha.

3 comentários:

Cristina (Tita) Ancona Lopez disse...

Incrivelmente criativas as tuas idéias.
O blog é super divertido e gostoso de ler.
Beijo,
Cris

Cesar Veneziani disse...

Criativa como nunca, textos bem escritos como sempre!

Anônimo disse...

rs...Muito bons!!!!!!
Beijo
Gabi