12 de outubro de 2009

Da série Feriado em Sampa

Caminhando e pensando

No sábado fez frio de 10 graus. O domingo me pegou de jeito com calor de 30.
Acordei convencida a caminhar. Elegi a avenida Paulista. Mas para chegar próximo a ela, peguei um trânsito 'a la sexta hora do rush' que eu não entendi! 
Parei o carro na Ana Rosa e fui a pé. Esse negócio de cortar por aqui e por ali pra fugir do engarrafamento é furada, porque todos os caminhos levam ao congestionamento.
Caraca! Quanta gente nessa cidade num feriado! Me deixem! Fui em frente, com meu tênis velho. Na entrada da Paulista já não havia carros. Então, cadê todo mundo que buzinava na minha orelha? Esquece. Caminhemos, pois. Os termômetros começaram avisando: 28 graus. Pouco depois, 31. Ainda bem que passei protetor. E reparei que a maioria das pessoas, embaixo desse forno a céu aberto, usa roupa preta. Foi quando me dei conta de que minha leg também é preta. Não é à toa que me sinto em franco derretimento. Acelerei as passadas, rumo ao futuro da avenida. Um jovem bicho-grilo, cabelo cheio de 'drads', andava a minha frente, de chinelo havaiana e uma mochila nas costas, com a logomarca do Bradesco. Adoro essas contradições... Pena eu fico mesmo é dos balconistas, obrigados a trabalhar num domingão como esse. Lojas abertas e gente comprando, especialmente nos minishopppings made in China. Faz sol, o que tem sido raro na cidade doida. Nem lembrava mais como era sentir a pele queimando e ter de espremer os olhos para enxergar. Passo pelo Banco Real onde há barraquinhas montadas vendendo de tudo, ao som de Tim Maia: 'eu só quero chocolate! Não adianta vir com guaraná pra mim...' Não... eu só quero mesmo é andar. Escuto conversas que desconheço: Arigatô! Sorry! Ich liebe dich! Gracias a la vida... e por aí vai. Salve a diversidade e os cursinhos de línguas!
Como tem gente que tira foto com os prédios ao fundo! E eu, que nasci e vivo aqui, não tenho foto minha na avenida... nenhuminha!
Já estou perto da Consolação, deu 12h30, e resolvo entrar na Haddock Lobo. O Fran's, bem ali, tem uma única mesa vaga na calçada. Sento. A maioria dos que estão lá forma casais homossexuais. Dois homens ao meu lado conversam animadamente. Na verdade, um. O outro escuta, fala pouco. Mas percebo que a conversa é totalmente hetero. "Terminamos, mas resolvemos continuar trabalhando juntos. Não deu. Ela cria sempre um problema. Não gosta da forma como encaminho as coisas. Eu antevejo o futuro. Ela pensa é no presente (e eu pensando comigo: nunca li 'Homens são de Marte, mulheres são de Vênus'...ou é o contrário?)". E o cara continuou monologando: "A gente traz coisas da forma que fomos criados, feridas... e aí cada um age como é melhor... e nós dois estávamos nos magoando. Era difícil porque eu sou sagitariano, sabe? Eu gosto muito dela, mas acho que criamos uma dependência ruim: ela satisfaz meu lado carente e eu satisfaço o seu lado material". Felizmente, antes que eu perguntasse qual era o signo dela e que carência material ela tinha, meu prato chegou. E me isolei - eu com minhas garfadas - até que vi uma pessoa se aproximando, sorrindo. Opa! E quem disse que em Sampa é difícil encontrar alguém conhecido? Pois eu sou expert em encontrar e ser encontrada. Amigo das antigas, de trabalho. Sentou-se. Gosto muito dele, nem sei bem porquê. Mas gosto. Profissionalmente, então, acho-o o máximo. Falamos dos trabalhos atuais, de amenidades para um domingão ensolarado, e acabei descobrindo que ele não tem predileção por ruivas (ah, bom!). As desenha no blog porque a cor facilita...vermelho. E com a cara mais leve do mundo (porque ele sempre foi um cara de aura leve - hum... acho que é por isso que gosto tanto dele) meu velho amigo se levanta. Eu fico pra terminar o suco de mamão, meio aguado. E estava pronta a prestar atenção novamente ao papo ao lado. Mas...foram embora e não percebi. Paguei a conta e rumei à Paulista. Deparei-me com um semáforo que marcava verde e vermelho ao mesmo tempo. E lembrei de situações recentes que vivi. Quanta falta faz um amarelo... Passei na frente da Casa das Rosas e me veio à lembrança um ex. O cara mais narcisista que já conheci. Mas são águas passadas. Atualmente estou sozinha. Quero distância de certas patologias. Cheguei perto de onde deixei o carro, de língua de fora (eu, é claro!), suada e com as pernas bambas. No botequinho árabe, entrei pra beber algo. A dona, sentada na mesinha, pergunta: "Que quer, menina?". Penso que os parâmetros de tempo mudam muito conforme a idade do observador. Peço um refri diet e um doce - adoro as minhas contradições. A senhora volta para trás do balcão quando me dirijo ao caixa. Me diz, na maior simplicidade, que tem inveja da coragem de pessoas como eu, que cortam o cabelo bem curtinho. Penso: "Pra mim corajosa é essa mulherada que acorda super cedo pra fazer escova, gasta os tubos pra alisar ou encrespar o cabelo e vive correndo da chuva pra não estragar a chapinha". E me lembro que quando estava caminhando, perto da Gazeta, um cara falou mais alto, pra eu escutar, ao passar por mim: "Oi, Elis Regina!" Juro que foi a cantada mais bacana que levei nos últimos tempos. Voltei pro carro cantarolando: 'quando caminho pela rua lado a lado com você, me deixas louca... você me abraça, a noite passa... meeeee deixas looouccaaaaa'. Paguei o estacionamento e voltei pra casa. Durante o banho revigorante, tive uma única certeza: caminhar é preciso!

2 comentários:

Cristina Ancona Lopez - Tita disse...

Leve e gostoso de ler. este flui.

Salvador disse...

sim...caminhar é preciso!
ajuda a manter leve...
^^